segunda-feira, 6 de abril de 2009
domingo, 19 de outubro de 2008
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Tornar consciente o inconsciente
E daí, pergunta a jornalista. O psicólogo psicanalista procura trazer à consciência de seu paciente conteúdos que eram inconscientes, e daí? O que o paciente faz com isso?
É uma pergunta bastante interessante que, em uma formulação mais acadêmica, poderia traduzir-se assim: qual é a eficácia terapêutica da técnica de tornar conscientes conteúdos inconscientes?
A resposta não é simples, e mereceria mesmo uma longa revisão do desenvolvimento histórico da técnica psicanalítica e das diversificadas teorias que a fundamentam. Covarde que sou (e digo isso fazendo uso de um recurso retórico de certo sociólogo carioca), passarei ao largo do enfrentamento do tema. Ao invés de uma investigação histórica de sua evolução teórica na psicanálise, pego um atalho para colocar a questão em termos mais práticos.
Tomemos então um exemplo. A escolha do objeto de amor pode se dar de maneira repetitiva
dentro de uma mesma família. Por exemplo, quando uma mulher, filha de um pai violento, escolhe como esposo um homem também violento, que a espanca tal qual o pai fazia com a mãe. Depois, a filha desse casal, para sair do ambiente familiar inóspito, fica grávida e casa com certo rapaz que, depois de algum tempo de casamento, se revelará um homem violento também. Muitas vezes, se fizermos o levantamento da história das mulheres dessa família ao longo das gerações, veremos que ela se repete há muito tempo. Tornar consciente essa repetição e os mecanismos psíquicos que a mantém facilitará o processo de mudança dos comportamentos que causam sofrimento.Como? Ora, mostrar ao sujeito que ele repete, sem o saber, um padrão de comportamento familiar é chamar sua atenção para o fato da existência de outras variáveis que compõem suas escolhas. Em outras palavras, aquele marido violento não foi escolhido como objeto de amor apenas por suas características pessoais, há algo no funcionamento psíquico e emocional daquela mulher que a leva a escolher como parceiro homens violentos.
Mas o que a paciente faz com essa informação, insiste a jornalista. Bom, em primeiro lugar, ela arruma outras inquietações na forma de perguntas a serem respondidas (ou seja, mais conteúdo inconsciente a ser tornado consciente): por que eu repito essa história, mesmo sabendo que ela me faz mal? Que lugar ocupo em minha família para que tenha de copiar os modelos de relação amorosa de suas mulheres? Que necessidade emocional esse homem violento supre em minha vida? Para enfim, quem sabe, chegar à pergunta decisiva: que outras formas de realização emocional eu poderia encontrar sem precisar colocar-me como vítima nas relações?
Com esse exemplo podemos perceber que a idéia de tornar consciente o inconsciente não é tão simples quanto parece. Não há um conteúdo traumático único que, revelado, desfaz toda a confusão e sofrimento mental, como pensava Freud no início de seus estudos e como parece ter ficado registrado no imaginário popular.
Tomar consciência de algo – no sentido que vimos até aqui discutindo – é muito mais do que ouvir algo que não se sabia sobre si próprio. Se não houver insight, compreensão interna, o conteúdo pode, como se diz no linguajar popular, entrar por um ouvido e sair pelo outro; ou então virar desculpa para defesas (racionalizações) do tipo: “Ah, então a culpada por eu ser como sou é minha mãe.” Cuja conclusão óbvia é: “por isso não posso fazer nada para mudar minha vida a não ser lamentar minha sorte e culpar minha mãe.”
E como se consegue atingir o tal insight? Novamente a resposta não
E o nome disso é relação terapêutica. Essa é a chave da questão. A eficácia terapêutica se dá no contexto de uma relação entre dois sujeitos reunidos para pensar, falar e viver os conteúdos subjetivos de um deles[1]. No contexto dessa relação podemos falar em transferência, experimentação, dramatização, regressão, não importa: qualquer técnica psicanalítica, seja de que escola for, será sempre aplicada no contexto de uma relação entre sujeitos.
Mais importante que tomar consciência de algo é poder viver uma relação na qual se pode experimentar, ensaiar, brincar, jogar com os conteúdos conflitivos sem correr o risco de, com essas experiências, perder a relação, afastar o terapeuta. Sem a possibilidade de trabalho nessa relação, somos obrigados a abraçar as inquietações da jornalista: o que fazer com os conteúdos tornados conscientes?
[1] Estamos falando de uma psicoterapia individual, mas o raciocínio poderia, evidentemente, ser estendido para uma terapia de grupo, na qual estariam então envolvidos mais que dois sujeitos.
domingo, 5 de outubro de 2008
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